Percebo que iniciar essa escrita a partir da minha narrativa significa iniciar essa escrita a partir de um fim para alguém, de uma experiência que ficou no passado e já não é remontada. No momento onde me encontro hoje, alguma partícula de interesse me captou a observar uma foto familiar, trazida recorrentemente à mesa da casa da minha mãe nos fins dos almoços barulhentos como um recorte de memória do casamento dos meus avós maternos, mas lida de forma muito particular. Me refiro ao tempo “onde”, porque nesse relato, o tempo pode parecer tão tátil - e íntimo - quanto um lugar que conhecemos, que faz parte da nossa vivência, mas nunca o habitamos. Devo então salientar, desde já, que a memória é a base da narrativa dessa escrita, que se desdobra (e já vem se desdobrando há algum tempo) nas práticas artísticas em que me sujeito experimentar. Não só a memória física, leia-se, arquivos, como a memória transmitida oralmente.
Transbordando o entendimento de memória como conhecemos, algo que lembramos ter vivido - seja enquanto indivíduo ou enquanto comunidade -, numa cronologia inversa, proponho olhar para a memória que vem depois do tempo presente e até mesmo antes da nossa presença no mundo, mas que está tão intrínseca à nossa existência, que assumimos possuí-la. Essa simbiose que chega a moldar nossa identidade, a qual a teórica romena Marianne Hirsch chama de pós-memória (HIRSCH, 2021, 2012, 2011), parece me conferir autorização para calçar os sapatos da minha avó neste retrato.
Devo começar narrando esta imagem, preta e branca e que denuncia um tempo passado, sobre a qual me refiro: em plano americano, um casal de sorrisos tímidos e olhares confiantes, composto por uma mulher, branca, em traje de noiva, um clássico vestido em tecido acetinado branco e um véu preso a um arranjo floral na cabeça, segurando um buquê, ao lado, um homem igualmente branco, alto, no qual se vê um lenço saltando do bolso do seu terno, uma gravata tão reluzente quanto o vestido da noiva, bigode e cabelos penteados. O que não se vê, e que torna a imagem peculiar, é o gesto da pessoa que os fotografou ter colocado a minha avó materna, Julieta, sobre uma pilha de livros para estar à altura (ou mais próxima) do meu avô, conferindo “harmonia” à imagem. Esta é uma memória contada pela noiva às suas filhas, que por sua vez, me contaram. Assim, sou herdeira de uma memória que só resiste ao tempo pela via oral, e que atravessou duas gerações que nem sequer existiam quando o retrato foi feito.
O punctum, tomando o conceito de Roland Barthes (1980 apud Hirsch, 2021, p. 23), ou o anzol que capturou meu interesse na imagem, se encontra nessa pilha de livros invisíveis. Uma espécie de pedestal de conhecimento a uma mulher que foi privada de se realizar profissionalmente e ter sua autonomia financeira. Intuitivamente, eu assumo o lugar do fotógrafo e procuro formas de revelar as potencialidades e a revolução transgeracional que essa mulher, elevada sobre tantos centímetros de conhecimento, alcançou.
Mas voltando para o tempo das coisas, se inicia em mim e no meu desejo criativo uma narrativa contada pelo avesso. Uma história familiar que, duas gerações após o fato vivenciado, é interpretada e desdobrada num conjunto de experimentações artísticas multidisciplinares. Na digestão em práticas artísticas desse inventário, que acontece nesse tempo necessário, como sugere Suely Rolnik (2011), o teor político é inerente ao cartografar um recorte social de uma sociedade “globalizada”.
É daí que, cerca de trinta anos após ter conhecimento de um segredo guardado nesse retrato de família, parte essa pesquisa. Num estalo de consciência, nascida e alimentada pelo viés feminista, mesmo que essa palavra não estivesse presente, percebo na fotografia o teor simbólico da posição da mulher. Me agarro a materialidades que o destino me entregou num momento oportuno - por acaso, caiu em minhas mãos uma sacola plástica com muitos metros de tecidos recortados, herança da minha tia avó que minha mãe não se recordava ter guardado. Da minha avó paterna, falecida aos 103 anos no ano de 2024, fiz questão de herdar suas ferramentas de trabalho: boleadores e outros tantos de recortes de tecidos coloridos e engomados na esperança de se tornarem arranjos florais  -, penso em outras ferramentas culturalmente atribuídas à “atividades femininas” e me proponho, num desejo compulsivo de desestigmatizar a figura da mulher, subverter as normativas, inclusive do meu próprio trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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PERIÓDICOS
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